Artigo: O otimismo da Faria Lima e de Paulo Guedes

Segundo economistas do ICL, são comuns estimativas oficiais mais otimistas do que as demais. "Mas, nesse caso, vemos uma disparidade muito elevada"
18 de julho de 2022

Artigo de Débora Magagna e André Campedelli*

 

Na semana passada ocorreram duas grandes reavaliações sobre a perspectiva econômica brasileira ao final de 2022. A primeira veio do mercado financeiro, no Relatório Focus, do Banco Central, divulgado em sua íntegra após um longo período de inatividade. A segunda veio do Ministério da Economia, mais especificamente do ministro Paulo Guedes. Além disso, também tivemos o Relatório Trimestral de Inflação do BC. Em todos os prognósticos, tivemos duas unanimidades: a primeira é de que a economia deve crescer acima do esperado; a segunda prospecta que a inflação vai ficar mais controlada no segundo trimestre.

Não é que não ocorram fatos que sustentem essa narrativa, mas, após análise com um pouco mais de calma, parece que existe um certo otimismo sobre a economia brasileira em um cenário em que o mundo corre sob elevada incerteza. A guerra da Rússia e Ucrânia e a desaceleração das economias podem gerar tanto consequências positivas à nossa economia, como foi o caso da expansão da venda de milho e trigo para a Europa, como podem gerar futuros problemas, por exemplo, o encarecimento do custo de matérias-primas para a produção de bens industriais e redução do comércio de soja para os chineses.

Então, como é possível analisar com tanta clareza esse surto de otimismo que parece ter tomado os analistas de mercado do Brasil? Primeiro, temos que olhar o Relatório Focus, que é um dos principais instrumento da Faria Lima, onde estão os principais agentes do mercado financeiro, de mandar recados para o público. No boletim, ocorreu uma redução significativa da expectativa de inflação ao mesmo tempo em que a previsão para o PIB de 2022 já passa do 1,5%; ao mesmo tempo, foi estimada uma inflação novamente acima do teto da meta em 2023, com uma queda acentuada do PIB para 0,5%, beirando, inclusive, à recessão. Quais seriam as fontes inflacionárias que iriam atuar para amenizar os choques até o final do ano, mas que contaminaram o seguinte? E quais motivos levam a crer que a economia deve crescer mais neste ano e, de repente, passar a sofrer com uma forte desaceleração, inclusive com possibilidade de queda?

Infelizmente, o Relatório Focus só nos mostra os dados. Não são colocadas, no documento, as análises sobre os motivos de suas estimativas. Mas alguns pontos podem ser observados tendo em mente que estamos em ano eleitoral. O cenário atual mais provável é que tenhamos até dezembro o governo Bolsonaro, sendo seguido pelo futuro governo Lula em 2023. Então, o mercado está falando, nas entrelinhas, que o governo Bolsonaro vai entregar até o final do ano um governo aquecido economicamente e com menores fontes inflacionárias; porém, ao entrar Lula com uma agenda malvista pelo mercado financeiro, ocorrerá inflação e desaceleração da economia.

É importante ter isso em mente, pois, por mais técnica que seja uma análise e uma previsão econômica, é levada em conta a ideologia do autor que a realiza. Aqui, neste espaço, não é diferente, pois a análise é feita a partir de um viés mais progressista e heterodoxo. A grande diferença é a clareza com que isso é colocado ao público. Enquanto o leitor deste artigo sabe disso, os analistas de mercado fingem que isso não existe, que suas análises e projeções levam somente números e técnicas em consideração. Mas a realidade é que isso é apenas negação da realidade, afinal, toda análise econômica tem lado.

O segundo ponto importante a observar são as estimativas oficiais. Um dos papéis dos chamados policymakers, aqueles responsáveis por fazer as políticas públicas econômicas, é tentar manter entusiasmada a população, fazendo com que ela se sinta segura para consumir sua renda com o menor medo possível do futuro. Ao dizer ao público que o ano deve ser melhor do que fora previsto e com uma estimativa tão acima da anterior, o que se diz, na verdade, é: “Consumam o auxílio que vocês vão receber, sem medo, pois a economia vai melhorar!”.

É comum vermos em toda história estimativas oficiais mais otimistas do que as demais. Mas, nesse caso, vemos uma disparidade muito elevada. Se observamos alguns órgãos oficiais importantes, como a OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico) e o Banco Mundial, vemos que o que é estimado por tais agências e pelo Ministério da Economia é bem discrepante. Além disso, os sinais internos não permitem que esse otimismo seja tão elevado.

Temos no segundo trimestre uma economia que está andando de lado. O setor de serviços e comércio tiveram apenas elevações marginais, quase estagnadas, e com desaceleração, se observado o acumulado em 12 meses. O nível de renda também não apresentou grandes mudanças, ficando estagnado nos últimos meses. Além disso, existe um conflito entre o que está sendo mostrado pelo IBC-Br do Banco Central e a estimativa oficial, já que temos duas quedas consecutivas de atividade da economia, e o previsto é de um crescimento de 0,7% no segundo trimestre. Isso posto, ou vai ocorrer uma elevação considerável em junho, que compense os dois meses, ou teremos uma elevação tímida, beirando à recessão nesse período.

Somado a esse cenário, temos a situação inflacionária. É certo que os fatores de inflação mais pesados do começo do ano foram quase neutralizados no momento. A melhora do clima permitiu uma maior oferta de alimentos, o que fez com que o preço desses bens caísse consideravelmente, enquanto os combustíveis tiveram a regra do ICMS, a qual, pelo menos temporariamente, deve reduzir os custos desses bens. Porém, é impossível dizer que essas fontes não voltarão no segundo semestre, principalmente com a elevação do câmbio que vem ocorrendo, com a falta de insumos de produção, devido à situação chinesa, e com a situação do petróleo, que está tendo um comportamento errático nesse momento.

Sendo assim, vemos que é possível, sim, afirmar que é possível um cenário econômico um pouco melhor do que foi previamente previsto. Mas, importante salientar, em uma economia com baixa atividade econômica, qualquer efeito positivo pode gerar grandes efeitos em cadeia, como deve ser o caso do Auxílio Brasil, no valor de R$ 600, e todos os outros benefícios que serão disponibilizados. No entanto, o nível de otimismo está demasiadamente elevado para um cenário de tanta incerteza mundial. O otimismo, portanto, está mais ligado a uma última tentativa de mostrar algum resultado econômico no governo Bolsonaro, do que, de fato, a uma melhora consolidada dos fatores de crescimento da economia brasileira.

 

*Deborah Magagna é economista do ICL, graduada pela PUC-SP com pós-graduação em Finanças Avançadas pelo Insper. É especialista em investimentos e mercados de capitais

*André Campedelli é economista do ICL e professor de Economia graduado pela PUC-SP. Tem doutorado pela Unicamp, com trabalhos focados em conjuntura macroeconômica brasileira

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