Brasil vai na contramão do mundo em projetos de energia renovável. Petrobras tem deixado de lado projetos na área de biocombustíveis

Brasil tem optado por sucatear seu patrimônio estatal, priorizando investimentos em energia suja para bancar dividendos de acionistas
18 de agosto de 2022

Não é de hoje que críticos têm apontado que o Brasil está andando para trás quando o assunto são os projetos na área de energia renovável. Na contramão do restante do mundo, enquanto grandes petroleiras têm investido mais em projetos de energia limpa e menos nos que priorizam combustíveis fósseis, com o intuito de contribuir para a descarbonização atmosférica e as decorrentes mudanças climáticas, a Petrobras, cuja maior parte do capital está nas mãos do governo, tem desinvestido em biocombustíveis. Trata-se, portanto, de um contrassenso em um país que tem grande parte da sua matriz energética originária de fontes limpas.

Outro caso recente foi o da Eletrobras. Reportagem do jornal O Tempo mostra que, desde 2013, a empresa, que foi privatizada, vem enfrentando um desmonte. O investimento na companhia de energia elétrica caiu de R$ 16,36 bilhões naquele ano para apenas R$ 3,12 bilhões em 2020, conforme dados do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), com base nos relatórios da própria empresa, que tem 84% de sua geração voltada às hidrelétricas.

A mesma situação foi observada na Petrobras. A reportagem analisou documentos da estatal, que mostram desinvestimento em usinas de biodiesel. O Relatório Sobre a Revisão das Demonstrações Financeiras Intermediárias, da Petrobras Biocombustível S.A. (Pbio), datado de 31 de março deste ano, mostra que “esta operação está alinhada à otimização de portfólio e à melhora de alocação do capital, visando a maximização de valor para seus acionistas”. Somente no primeiro semestre de 2022, a estatal lucrou R$ 136,3 bilhões.

Em seu portfólio, a Petrobras tem hoje três usinas de biodiesel: uma em Quixadá (CE), outra em Candeias (BA) e mais uma em Montes Claros, no norte de Minas. Mas, segundo a reportagem, todas estão subutilizadas, sendo que a do Ceará sequer entrou em operação.

O biodiesel no Brasil é obtido a partir do processamento de óleo de soja, em sua maioria. Mas, em países como a Argentina, ele é derivado de fonte gordura animal.

O economista Thiago Silveira, do Observatório Social do Petróleo, classificou como problemática a postura da Petrobras de priorizar mais a exploração do pré-sal, com o objetivo de aumentar os dividendos de seus acionistas, em detrimento dos projetos mais sustentáveis.

“É preocupante porque (acontece) no momento em que o mundo está investindo em energia renovável. As próprias petroleiras estão se tornando empresas de produção de energia (limpa). Estão saindo só do foco dos combustíveis fósseis. A Petrobras está fazendo o contrário. Então, não coloca só em risco a biodiversidade, a sustentabilidade do Brasil, mas da própria empresa, porque ela vai deixar de ser um player mundial (em energia renovável)”, afirma.

Além dos biocombustíveis, a Petrobras também vendeu suas participações em energia eólica nos últimos anos. Os quatro parques que a empresa tinha foram todos repassados à iniciativa privada.

Já no que se refere à Eletrobras, o jornal O Tempo também mostra que a empresa, principalmente após ser privatizada, está indo para o mesmo caminho.

O economista do Dieese Cloviomar Cararine, entrevistado pela reportagem, disse que a falta de investimento prejudica o Brasil para além da geração de energia renovável, porque também força a importação de conhecimento por falta de especialização da mão de obra. “Não estamos pensando no nosso parque de engenheiros, que deveria receber investimentos agora. Quando a gente precisar, vamos ter que importar tudo isso. As estatais e empresas privadas de outros países, por conta da pressão de tratados e acordos firmados, estão investindo nisso. Mas, por aqui, estamos trazendo estatais estrangeiras para atuar no setor e vender nossas estatais. É uma loucura”, criticou.

Em vez de energia renovável, Brasil aposta em termelétricas

O Brasil tem uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo, mas prefere continuar investindo em termelétricas para geração de energia a partir de fontes fósseis. Recentemente, o tema vem ocasionando mobilização da sociedade civil.

No último dia 10, organizações do setor elétrico e de defesa do consumidor divulgaram uma carta contra o leilão agendado para 30 de setembro, para contratação de novas usinas movidas a gás natural, sob o argumento de que o custo é alto e que não há necessidade de nova contratação, uma vez que os reservatórios estão cheios. O documento foi encaminhado ao ministro de Minas e Energia, Adolfo Sachsida.

A contratação de térmicas a gás natural está prevista na lei de privatização da Eletrobras, sancionada pelo presidente Jair Bolsonaro em julho.

Nas últimas duas décadas, o Brasil aumentou a sua produção de energia elétrica em 78%, mas não manteve a mesma proporção em termos de fontes renováveis. Por outro lado, as termelétricas tiveram suas capacidades ampliadas e se multiplicaram, trazendo impactos ao meio ambiente e encarecendo a conta de energia elétrica em um momento de perda da renda do brasileiro.

No âmbito dos combustíveis, o candidato à Presidência Ciro Gomes (PDT) traz, em seu plano de governo, propostas mais concretas tendo a Petrobras no foco. O plano do pedetista, protocolado no TSE (Tribunal Superior Eleitoral), diz que “uma das nossas prioridades será mudar a política de preços da Petrobras, que hoje só beneficia importadores e acionistas, mas prejudica toda a sociedade brasileira, dado seu impacto sobre a inflação”.

O plano prevê iniciar um processo “que transformará a Petrobras numa empresa de ponta no desenvolvimento de novas fontes de energia, pois entendemos que o Brasil tem uma oportunidade de ouro para usar seus recursos naturais e desenvolver energia boa, barata e progressivamente limpa”.

Na avaliação dos economistas do ICL Deborah Magagna e André Campedelli, essa é, talvez, uma das partes mais importantes do plano de governo do pedetista. “Esse é um projeto que já vem sendo proposto em diversos países (…). A conjuntura de utilização da empresa nesse sentido a fortaleceria no curto prazo, ao mesmo tempo em que uma agenda verde é traçada. Esta é, com certeza, a melhor parte do plano de governo do candidato”, afirmam.

Redação ICL Economia
Com informações de O Tempo

 

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