Com 203 milhões de habitantes, Censo do IBGE mostra que população brasileira cresceu, mas no menor nível histórico. Dados devem mudar números do emprego

Com uma série de percalços pelo caminho, resultado divulgado pelo IBGE ontem (28) mostra 4,7 milhões de pessoas a menos que o estimado pela prévia do levantamento. Diferença deve impactar outras pesquisas feitas pelo IBGE, como a do mercado de trabalho
29 de junho de 2023

Prejudicado pela pandemia de Covid-19 e pelo desinvestimento realizado pelo governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), o Censo Demográfico do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) 2022 divulgou ontem (28) que o Brasil possui 203,1 milhões de habitantes. O resultado representa 4,7 milhões de pessoas a menos do estimado pela prévia da pesquisa.

Em dezembro do ano passado, o próprio instituto calculou a população em 207,8 milhões. Essa prévia foi composta por dados iniciais do Censo, além de projeções. Em 2021, o instituto havia divulgado que a população brasileira era estimada 213,3 milhões de pessoas, tendo como referência dados do Censo anterior, de 2010.

Apesar das diferenças de projeções, o resultado mostra que a população brasileira cresceu 6,5% (12,3 milhões a mais) de 2010 a 2022, embora em ritmo menor, de 0,52% ao ano. Trata-se da menor taxa desde o primeiro Censo do Brasil, em 1872, e é a primeira vez que o avanço fica abaixo de 1% na pesquisa.

“A queda da fecundidade começou no final da década de 1960. Começou com uma queda pequena, mas a partir da década de 1970 se espalhou pelo Brasil todo”, disse o demógrafo José Eustáquio Diniz Alves, pesquisador aposentado do IBGE, segundo o jornal Folha de S.Paulo. “De lá para cá, a fecundidade só cai. Ao mesmo tempo, temos um aumento da expectativa de vida e uma redução das taxas de mortalidade”, completou.

O crescimento menor da população encaminha o país para o fim do chamado bônus demográfico, segundo o especialista, que traz desafios para a economia, pois o número de pessoas em idade produtiva está diminuindo enquanto, por outro lado, o de aposentados aumenta.

Para mudar essa equação, ele sugeriu que elevar a produtividade, ou seja, produzindo mais com menos, é o caminho. “A transição demográfica é o maior fenômeno de mudança de comportamento em massa da humanidade. Está mexendo com a vida das pessoas, com a morte delas”, disse.

Para o presidente interino do IBGE, Cimar Azeredo, o instituto ainda trabalha para entender o que está por trás do crescimento menor da população. Além disso, o órgão precisa fazer uma análise mais detalhada a respeito de eventuais impactos da mortalidade provocada pela pandemia de Covid-19.

“A gente precisa esperar o trabalho que os demógrafos do IBGE estão fazendo para que a gente possa entender melhor o quanto o Brasil pós-pandemia está sendo influenciado por fecundidade, mortalidade, migração internacional, uma série de fatores que podem contribuir de forma expressiva para a queda da taxa de crescimento anual”, afirmou Azeredo.

Iniciado em agosto do ano passado, os resultados do Censo Demográfico do 2022 serão divulgados em etapas. Os dados divulgados ontem, por exemplo, não trouxeram dados sobre as características etárias e de gênero dos brasileiros. Ficou centrada na evolução do número de habitantes e de domicílios.

Censo do IBGE 2022 deve impactar outras pesquisas, como os números do mercado de trabalho

Em suas pesquisas socioeconômicas recentes, o IBGE costumava usar como parâmetro dados populacionais projetados. É o caso da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) mensal, trimestral e anual. Pela projeção da população do IBGE atualizada em 2020, seríamos quase 215 milhões no ano passado.

Mas, como revelaram os primeiros dados do Censo, a população brasileira é menor que isso e os impactos na Pnad pode ser relevante para se pensar alguns aspectos do mundo do trabalho e a taxa de desemprego. Entre os dados do Censo e da Pnad, são 11 milhões de pessoas a menos, uma diferença de mais de 5%.

Além disso, ao menos na revisão da estatística, o país ficou mais rico (aumentou o PIB per capita), embora a desigualdade social e econômica seja notória nas ruas de cidades como São Paulo.

Os números revelados confirmam um prognóstico já conhecido: o Brasil vai precisar de mão de obra imigrante, principalmente com qualificação, se a economia voltar a crescer.

Os números do Censo devem ocasionar revisões nos números do mercado de trabalho, como a proporção de pessoas ocupadas ou procurando trabalho em relação à população total em idade de trabalhar (mais de 14 anos, na estatística do IBGE). Com isso, a taxa de desemprego pode ser revisada.

Mas, na avaliação do colunista da Folha Vinícius Torres Freire, já é possível especular que a situação do emprego é, quantitativamente, melhor, pois há proporcionalmente mais gente trabalhando, uma vez que a população é menor que o projetado anteriormente. Mas é necessário esperar os novos dados que serão divulgados pelo IBGE, principalmente aqueles referentes à população por faixa de idade.

Censo 2022 teve taxa de não resposta de 4,23% e Bolsonaro tem responsabilidade nisso

O Censo Demográfico do IBGE de 2022 enfrentou uma série de problemas e o ex-presidente Bolsonaro tem muita responsabilidade nisso.

Iniciado em 1º de agosto do ano passado, o IBGE planejava encerrar as entrevistas em três meses, até outubro. Mas houve uma série de pedras pelo caminho do instituto, como falta de recursos, de recenseadores dispostos ao trabalho e muitos deixando seus postos devido às péssimas condições de trabalho, como ameaças durante as pesquisas devido à tensão política no período eleitoral.

Por essa razão, foram feitas coletas de dados residuais até o final de maio deste ano. Ou seja, a operação levou quase dez meses.

A taxa de não resposta ao Censo foi de 4,23% no Brasil. É o percentual de domicílios onde o IBGE constatou que havia moradores, mas não conseguiu fazer as entrevistas. Além disso, a taxa de recusa alcançou 1,38%. Trata-se do percentual de domicílios onde as pessoas não quiseram prestar as informações.

Essas porcentagens foram maiores no estado de São Paulo, o mais populoso do país (São Paulo permanece a capital mais populosa do país, com 11.451.245 habitantes, crescimento de 1,8% ante 2010). A taxa de não resposta local alcançou 8,11%, e a de recusa, 2,34%.

O Censo deveria ter sido feito em 2020, mas teve que ser adiado devido à pandemia de Covid. Em 2021, o levantamento foi novamente adiado devido a um corte de verbas de 96% no orçamento. A previsão era gastar R$ 2 bilhões naquele ano (o que já seria uma sombra da estimativa de R$ 3,4 bilhões de 2019), mas o valor foi reduzido para R$ 72 milhões.

A retirada da verba foi feita pelo Congresso Nacional, mas a decisão de desidratar o orçamento do IBGE coube ao governo Bolsonaro.

O STF (Supremo Tribunal Federal) determinou, em maio de 2021, que o governo Bolsonaro garantisse recursos para que o levantamento fosse realizado em 2022.

Os dados do IBGE orientam o tamanho dos repasses do FPM (Fundo de Participação dos Municípios), que abastecem prefeituras pobres, até a metodologia das pesquisas eleitorais.

Devido aos problemas na pesquisa, prefeituras de centenas de municípios do país ameaçam acionar a Justiça para pedir revisão da distribuição de repasses do FPM, principal fonte de receita da maioria das cidades do país.

Redação ICL Economia
Com informações das agências de notícias e da Folha de S.Paulo

 

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