Insegurança alimentar atinge 60 milhões de brasileiros e 15 milhões passam fome, segundo relatório da ONU

No mundo, fome afetou 828 milhões de pessoas no ano passado, número que representa cerca de 10% da população no planeta
7 de julho de 2022

A fome atingiu 828 milhões de pessoas no mundo em 2021, aumento de cerca 150 milhões desde o início da pandemia, que começou em março de 2020. O montante equivale a cerca de 10% da população mundial (aproximadamente 7,7 bilhões). Entre os brasileiros, a prevalência de insegurança alimentar moderada ou grave aumentou de 37,5 milhões de pessoas (18,3%), entre 2014 e 2016, para 61,3 milhões (28,9%), entre 2019 e 2021. Esse grupo passou por “sensação desconfortável ou dolorosa causada pela energia insuficiente da dieta” ou “privação de comida”.

Somente entre as pessoas que passaram fome e, no extremo, ficaram sem comida por um dia ou mais (insuficiência grave), o salto foi de 3,9 milhões (1,9%) para 15,4 milhões (7,3%) no mesmo período. O restante não tinha certeza sobre a capacidade de conseguir comida e, em algum momento, teve que reduzir a qualidade e quantidade de alimentos (insegurança moderada).

Os números fazem parte do relatório “O Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo 2022” e foi publicado em conjunto pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), o Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (Fida), o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), o Programa Mundial de Alimentos da ONU (WFP) e a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Depois de permanecer relativamente inalterada desde 2015, a proporção de pessoas afetadas pela fome saltou em 2020 e continuou a subir em 2021, chegando aos 9,8% da população mundial, ante 9,3% em 2020 e 8% em 2019.

Cerca de 2,3 bilhões de pessoas no mundo (29,3%) enfrentaram insegurança alimentar moderada ou severa em 2021 – 350 milhões a mais em comparação com antes da pandemia de Covid-19.

Aproximadamente 924 milhões de pessoas (11,7% da população global) enfrentaram a insegurança alimentar em níveis severos, um aumento de 207 milhões em dois anos.

O acesso à alimentação adequada é investigado por uma série de instituições, que produzem dados quantitativos e qualitativos sob diferentes metodologias. Isso porque a fome é um conceito complexo de ser medido pelos pesquisadores, portanto, são buscados diversos parâmetros para classificar a questão.

Segundo as Nações Unidas, a insegurança alimentar grave e moderada são medidas com base na Escala de Experiência de Insegurança Alimentar (Food Insecurity Experience Scale – FIES, na sigla em inglês).

Já a Pnad, do IBGE (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) , por exemplo, investiga a fome a partir da Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (EBIA), que mede diretamente a percepção e vivência de insegurança alimentar e fome no nível domiciliar.

Fome no Brasil atinge 33,1 milhões de pessoas, retrocesso de 30 anos

fome no Brasil

Foto: Tomaz Silva – Agência Brasil

Em junho, levantamento da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan) apontou que a fome atingiu 33,1 milhões de pessoas no país, um retrocesso de 30 anos.

Apesar de as pesquisas se darem sob diferentes metodologias, ambas apontam para uma mesma tendência: os países estão se afastando de suas metas de acabar com a fome, insegurança alimentar e má nutrição em todas as suas formas até 2030, conforme compromisso estabelecido no âmbito da ONU.

A pesquisa também identificou os efeitos do aumento nos preços dos alimentos ao consumidor decorrentes dos impactos econômicos da pandemia e das medidas colocadas em prática para contê-la. Segundo o relatório , quase 3,1 bilhões de pessoas não conseguiram pagar por uma alimentação saudável em 2020, aumento de 112 milhões em relação ao ano anterior.

Segundo o relatório, as projeções são de que cerca de 670 milhões de pessoas (8% da população mundial) ainda enfrentarão a fome em 2030, mesmo que ocorra uma recuperação econômica global.

“Trata-se de um número semelhante ao de 2015, quando o objetivo de acabar com a fome, a insegurança alimentar e a má nutrição até o final desta década foi lançado sob a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável”, informou a ONU, durante a divulgação da pesquisa.

Os aumentos globais de preços de alimentos, combustíveis e fertilizantes, em decorrência do conflito Rússia e Ucrânia, ameaçam empurrar mais ainda os países ao redor do mundo para a fome. O resultado será a desestabilização global, a fome e a migração em massa em uma escala sem precedentes.

Mulheres estão à frente dos homens na insegurança alimentar


A lacuna de gênero na insegurança alimentar continuou a aumentar em 2021, de acordo com o relatório. Aproximadamente 32% das mulheres no mundo enfrentaram insegurança alimentar moderada ou severa, enquanto 27,6% dos homens passaram pela mesma situação. A diferença, que era de três pontos percentuais em 2020, passou a mais de quatro pontos no ano passado.

Além disso, 45 milhões de crianças menores de cinco anos estavam abaixo do peso ideal, o que aumenta o risco de morte em até 12 vezes. Outras 149 milhões de crianças, na mesma faixa etária, tiveram crescimento e desenvolvimento atrofiados, devido à falta crônica de nutrientes essenciais em suas dietas. Por outro lado, 39 milhões de pessoas nessa faixa etária estavam acima do peso.

Assim, a diretora executiva do Unicef, Catherine Russell, alertou que a escala “sem precedentes” da crise de desnutrição entre crianças exige resposta à altura. “Com a vida e o futuro de tantas crianças em jogo, este é o momento de intensificar nossa ambição pela nutrição infantil. E não temos tempo a perder.”

Redação ICL Economia
Com informações das agências de notícias

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