Representante da FAO diz que Brasil não prioriza o combate à fome

Para Rafael Zavala, o problema do Brasil não é de escassez de alimentos como outras partes do mundo, mas, sim, de desigualdade
1 de julho de 2022

O governo brasileiro deixou a insegurança alimentar chegar a uma “cifra assustadora”, ao deixar de priorizar o combate à fome. A declaração é do representante da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO/ONU) no Brasil, Rafael Zavala, em entrevista à BBC News Brasil.

Para ele, o problema do Brasil não é de escassez de alimentos como em outras partes do mundo, mas, sim, de desigualdade, e lamenta o país estar nessa situação, justamente o Brasil que foi protagonista de uma das campanhas mais bem-sucedidas contra a insegurança alimentar do mundo, quando, em 2014, reduziu a proporção de cidadãos que passavam fome para 1,7% da população (3,4 milhões de habitantes), e superou o problema da pobreza extrema.

Zavala afirma que “o país sabe como fazer para mudar essa situação [de insegurança alimentar]”, mas que o atual governo brasileiro abandonou, nos últimos anos, práticas importantes que contribuem para esse cenário de insegurança alimentar, como investimentos no salário mínimo e na geração de empregos.

O cenário que Zavala aborda é explicitado pelo “Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil”, conduzido pela Rede PENSSAN e divulgado no início de junho. O estudo mostra que atualmente 33,1 milhões de brasileiros vivem em situação de fome no país. No fim de 2020, eram 19,1 milhões.

Analisando o estudo, Zavala explica que existem atualmente dois bolsões de pobreza no Brasil: “um das cidades grandes e outro das zonas rurais mais afastadas e incomunicáveis, em que uma interrupção do fluxo de abastecimento pode gerar condições de insegurança alimentar grave”.

Diminuir desigualdade é caminho para o combate à fome

combate à fome

Rafael Zavala (foto: Arquivo FAO)

Para o especialista da ONU, o problema no Brasil, assim como na América Latina, não é de disponibilidade de alimentos, mas sim de desigualdade, pobreza e falta de renda. Dessa forma, a estratégia para um próximo governo, segundo ele, é priorizar o combate à fome em todo o país investindo na geração de empregos e fortalecimento de programas de inclusão social. “Posso imaginar que, há cinco anos, o problema da fome estava mais concentrado no Norte e Nordeste do Brasil. Então, é possível que tenha havido uma interpretação de que tratava-se apenas de um problema regional. Mas essa realidade mudou e esse tema precisa ser uma prioridade nacional agora”, explicou.

Questionado pela reportagem se a pandemia de Covid-19 piorou a situação, Zavala afirma que sim, exemplificando que “quando as escolas foram fechadas, por exemplo, muitas crianças ficaram sem seu alimento principal do dia”. O auxílio emergencial, segundo ele, não foi suficiente e muitas pessoas passaram fome – calcula-se cerca de 20 milhões no primeiro ano da pandemia. Além disso, “boa parte da população brasileira se ocupa na economia informal e viu seus ingressos para alimentação diminuírem na pandemia”, ressaltou.

Zavala ainda contextualizou o cenário mundial de crise. “Dizemos que há geralmente quatro grandes causas por trás da fome: conflitos armados, crise econômica, choque climático e epidemias. As quatro estão acontecendo simultaneamente no mundo hoje”. Mas lembrou que o Brasil “não tem um problema de disponibilidade de alimentos, mas sim de acesso econômico a eles” e chamou o país de ‘locomotiva alimentar mundial’. “O grande desafio é fazer com que esses alimentos cheguem aos lares. E é por isso que temos que trabalhar pela geração de renda”, avaliou.

Nesta semana, foi divulgada pesquisa do Mapa da Nova Pobreza, do FGV Social (Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas), que mostra que quase um terço dos brasileiros tem menos de meio salário mínimo para passar o mês. Pelo levantamento, o número de pessoas com renda domiciliar per capita até R$ 497 mensais atingiu 62,9 milhões de brasileiros em 2021, ou seja, 29,6% da população total do país. O dado corresponde a 9,6 milhões de pobres a mais que no período pré-pandemia, em 2019, o que equivale quase à população de Portugal.

Os dados indicam também que a pobreza nunca esteve tão alta no Brasil quanto em 2021, desde o começo da série histórica da PNADC (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua), em 2012.

Rafael Zavala participou nesta quinta-feira (30) da Conferência de Segurança Internacional do Forte de Copacabana, evento da área de segurança internacional, promovido pela Fundação Konrad Adenaur, Delegação da União Europeia e Centro Brasileiro de Relações Internacionais.

Redação ICL
Com informações da BBC News Brasil

Continue lendo

Assine nossa newsletter
Receba gratuitamente os principais destaques e indicadores da economia e do mercado financeiro.