The New York Times aborda garimpo ilegal e desmatamento na Amazônia, pondo a culpa no governo Bolsonaro

Reportagem idenficou 1.269 pistas de pouso não registradas em toda a floresta amazônica brasileira, as quais abastecem indústria ilícita que cresceu sob Bolsonaro
3 de agosto de 2022

O jornal norte-americano The New York Times (NYT) elaborou reportagem de fôlego sobre o desmatamento na Amazônia e todas as implicações econômicas, ambientais e, também, a ameaça do garimpo ilegal aos povos originários daquela região. A reportagem, traduzida pelo jornal O Globo, também não poupa críticas ao governo de Jair Bolsonaro, a quem responsabiliza por todo o caos instalado na maior floresta tropical do mundo.

No longo texto, o jornal diz que até mesmo a pista de pouso dos aviões que chegam para prestar assistência sanitária aos povos indígenas foi tomada pelo garimpo ilegal, que também construiu outras pistas ilegais para dar suporte à mineração de ouro e estanho. “A pista de pouso agora pertence aos mineiros”, disse Junior Hekurari, um agente de saúde indígena, à reportagem do NYT.

O jornal conta que essas redes de garimpo ilegal funcionam “devido à negligência ou ineficácia das agências reguladoras e de fiscalização no Brasil, incluindo as dos militares”.

O NYT usou imagens de satélite por meio das quais identificou 1.269 pistas de pouso não registradas em toda a floresta amazônica brasileira no ano passado, “muitas das quais abastecem uma próspera indústria ilícita que cresceu sob o presidente Jair Bolsonaro do Brasil”.

A Amazônia, segundo a reportagem, está sob saque constante, seja do garimpo ilegal como de extratores de madeira ilegal. As duas atividades, feitas de modo ilegal e debaixo do nariz do governo Bolsonaro, colocam em xeque não somente os meios de subsistência das populações indígenas e ribeirinhas, que dependem dos recursos naturais dos rios e da floresta, como traz prejuízos enormes ao meio ambiente, uma vez que o bioma amazônico atua “como uma esponja gigante, mantendo dezenas de bilhões de toneladas de dióxido de carbono fora da atmosfera”, mas também traz grande prejuízo econômico.

O desmatamento generalizado para o avanço da agricultura e da pecuária, principalmente, tem acelerado as mudanças climáticas e levado a Amazônia a um ponto de inflexão de não retorno, quando a própria floresta se torna incapaz de regenerar-se dos danos causados.

Desde que Jair Bolsonaro assumiu, destruição da floresta e garimpo ilegal atingiram níveis recordes

Quando assumiu a Presidência do país em 2019, Bolsonaro afrouxou as regulamentações para expandir a extração de madeira e a mineração na Amazônia. Além de reduzir a proteção dos povos originários, cortou fundos federais e pessoal, tornando fracas os órgãos responsáveis pelo cumprimento de leis e normas indígenas e florestais.

Além de o nível de desmatamento ter atingido recordes em seu governo, o avanço da mineração por conta do garimpo ilegal em terras indígenas, principalmente para retirada de ouro, ganhou contornos mais graves.

Não bastasse toda essa situação, as mortes do jornalista britânico Dom Phillips e do indigenista Bruno Pereira, em 5 de junho passado, assassinados por pescadores ilegais, expôs o nível de desordem e criminalidade dentro da maior floresta tropical do mundo.

A ilegalidade dos negócios na Amazônia impacta ainda aqueles que trabalham na legalidade. Em maio passado, informe anual da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) revelou que o desmatamento no Brasil terá um impacto negativo também paras os lucros dos agricultores nas próximas três décadas, da ordem de US$ 1 bilhão por ano.

O documento ainda fez um alerta dizendo que o desmatamento no Brasil tem sido significativo, e que a preservação da floresta poderia garantir renda, ao contrário do que defende o governo Jair Bolsonaro, que abriu a porteira para transformar áreas de proteção em locais de exploração econômica.

A reportagem do NYT traz uma declaração de Bolsonaro a apoiadores, no cercadinho de Brasília, de que “não é justo criminalizar os garimpeiros”, enquanto somente nas terras Yanomami — cerca de 100 mil km², ou aproximadamente o tamanho de Portugal — “as autoridades policiais estimam que 30 mil garimpeiros estejam trabalhando ilegalmente em território protegido pelo governo”.

Ainda segundo o NYT, o garimpo ilegal em terras Yanomami, perto da fronteira do Brasil com a Venezuela, “é uma janela para o que está acontecendo na floresta amazônica, que cobre cerca de 60% do país.

O avanço do garimpo ilegal só foi possível devido à abertura de pistas de pouso ilegais, meio mais fácil de chegar à densa floresta. “Nossa percepção é que, sem aviões, não existiria mineração na terra Yanomami”, disse Matheus Bueno, procurador federal de Boa Vista, capital do estado de Roraima, onde fica parte da terra Yanomami, em entrevista à reportagem.

De 2010 a 2020, o garimpo ilegal em terras indígenas cresceu quase 500% e em terras de conservação em 300%, de acordo com uma análise do MapBiomas, projeto coletivo brasileiro de ONGs e instituições acadêmicas com foco no clima.

Por outro lado, o garimpo, conforme a reportagem, revela outra face da moeda. Os garimpos normalmente começam com um único homem caminhando pela floresta, carregando apenas uma pá, uma enxada, uma tigela de extração de ouro e um dispositivo GPS. E eles, muitas vezes, vêm de comunidades empobrecidas, procurando ganhar mais do que um salário mínimo.

Por sua vez, os chefes do garimpo “fazem parte de empreitadas criminosas fragmentadas, mas politicamente poderosas, que capitalizaram, nos últimos anos, o mercado de trabalho barato e o aumento do preço do ouro e do estanho”.

Esse mercado acaba gerando um efeito em cascata. Quanto mais lucrativo torna-se determinado local de garimpo, mais garimpeiros chegam, levando à situação triste e alarmante que temos testemunhado recentemente.

Redação ICL Economia
Com informações dos jornais The New York Times e O Globo.

 

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